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A nova cara do cinema argentino

cine-curso-espanholUm guia para conhecer um pouco mais os diretores que estão renovando

a imagem latino-americana. Por mais desafiadora e arriscada que seja a tentativa de aglutinar estéticas numa única tendência proeminente, a verdade é que a nova safra de filmes argentinos tem chamado a atenção da crítica e do público, no que é possível conferir nas telas brasileiras. Seja pelo estranhamento diante das imagens asfixiantes de "O Pântano", pela economia narrativa dos filmes de Lisandro Alonso, ou pela interpretação autêntica de atores amadores em "Família Rodante".

O que já se convencionou identificar como "novo cinema argentino" aparece ainda carente de explicações conceituais capaz de elucidá-lo. Veio o rótulo sem a bula. Os próprios criadores relutam em aceitar uma tabulação. "Não acredito em regras para fazer cinema sob aspecto nenhum, nem nas da nouvelle vague, nem nas do neo-realismo italiano, nem nas do Dogma, nem nas de Hollywood. Cada filme tem suas próprias regras", palavras de Pablo Trapero, um dos diretores cultuados da nova era argentina.

Melhor então lidar com fatos. É profícuo retomar alguns episódios que se passaram durante a década de 90 a fim de esboçar possíveis primórdios. Em 1995, o Instituto Nacional do Cine e do Audiovisual Argentino (Incaa) aprovou uma lei de fomento e regulação da atividade cinematográfica baseada na cobrança de taxas sobre as entradas nas salas de cinema, sobre a venda de fitas de vídeo e DVD, além da taxação da publicidade na TV.

Essa medida possibilitou o financiamento, através de créditos e subsídios, de produções nacionais e o incentivo ao surgimento de novos realizadores. Uma das iniciativas do instituto consistiu na premiação do ciclo "Histórias Breves", compilação de curtas-metragens de diretores iniciantes. Da sua primeira edição, em 1996, saltaram nomes auspiciosos como Lucrecia Martel e Adrián Caetano.

Imprescindíveis como espaço de exibição a esses novos talentos, dois festivais de cinema tornaram-se centro de difusão ao acolher jovens cineastas da nova onda argentina. Primeiro, o Festival de Mar del Plata, que, em 1996, voltou à ativa depois de mais de 20 anos no limbo. Teve sob a coordenação do Incaa papel preponderante ao examinar com esmero os filmes produzidos no próprio país e oferecer chances de exibição. Proposta que surtiu efeito já no ano seguinte, quando foi exibido "Pizza, Birra, Faso" (1997), retrato realista de um grupo de marginais adolescentes dirigido em conjunto por Bruno Stagnaro e Adrián Caetano, hoje considerado pela crítica argentina como o filme precursor da renovação subseqüente.

Outro terreno fértil foi o Festival de Cinema Independente de Buenos Aires (Bafici), criado pelo crítico cinematográfico Eduardo Antín em 1999. No mês de abril desse ano, duas obras fundamentais estrearam no festival: "Mundo Grúa", primeiro longa de Pablo Trapero, na época com apenas 27 anos, e "Silvia Prieto", de Martín Rejtman. A essa altura já não restavam dúvidas: um cinema bastante original, embora ainda inclassificável, brotava em território argentino. E não demorou para extrapolar as fronteiras.

"Mundo Grúa" (1999) conquistou o prêmio de melhor primeiro filme no Festival de Veneza. "O Pântano" (2001), de Lucrecia Martel, venceu como melhor filme de estréia em Berlim. "La Niña Santa", segundo longa de Martel, foi selecionado na mostra competitiva e recebeu menção especial da crítica no Festival de Cannes de 2004. No Brasil, algumas amostras do vigor argentino vêm, aos poucos, ocupando as salas de cinema, caso da mais recente Mostra BR de São Paulo, cujo destaque ficou por conta dos dois últimos filmes de Pablo Trapero e Lucrecia Martel, "Família Rodante" e "La Niña Santa", respectivamente.

Para efeito de apresentação, Trópico relacionou alguns expoentes do "novo cinema argentino", ciente da limitação subjetiva de tal abrangência.

Nasceu na cidade de Salta, Argentina, em 14 de dezembro de 1966. Cresceu numa família de classe média. Teve formação católica até os 16 anos, época em que resolveu afastar-se da igreja e seguir sua própria religiosidade. Ainda na infância, seu pai decidiu comprar uma câmera de vídeo para registrar imagens da família. Martel passou a filmar a movimentação dos familiares dentro da própria casa. Segundo ela, logo a prática virou algo compulsivo. Deixava a câmera ligada na cozinha quatro horas seguidas e esperava que as pessoas passassem diante dela.

Mais tarde, rumou sozinha para a capital e fez inscrição no curso de comunicação social na Universidad de Buenos Aires (UBA). Depois, cursou animação na Escola de Cine de Avellaneda. Dos 22 aos 28 anos dirigiu quatro curtas-metragens: "El 56", "Piso 24", “Besos Rojos" e "Rey Muerto". Este último fez parte do ciclo "Histórias Breves", reunião de vídeos de estudantes que deu notoriedade à diretora.

Em 2001, finalizou seu primeiro longa-metragem, "O Pântano" (La Ciénaga). A fim de selecionar o elenco para o filme, ela reuniu na sua casa, em Salta, mais de mil pessoas e entrevistou-as das nove da manhã até às onze da noite. O filme narra o cotidiano de duas famílias em férias numa região ao norte da Argentina. Pouco acontece de mirabolante, pequenas picuinhas e fatos corriqueiros sucedem-se numa atmosfera sufocante. "Lucrecia Martel não quer apenas contar uma história, mas passar a sensação de vivermos na mesma casa onde vivem os personagens do filme", escreveu o crítico Roger Ebert no “Chicago Sun-Times”.

No seu segundo longa, "La Niña Santa" (2004), tudo se constrói num jogo de insinuações, segredos e sublimações, que vão se acumulando até o insuportável. O enredo: em um congresso de medicina, uma garota é bolinada no meio da multidão por um dos médicos palestrantes. Sob a vigilância ressabiada da adolescente, a mãe fica atraída pelo médico, enquanto este de fato só pensa na filha. De passagem pelo Rio de Janeiro, a diretora disse estar escrevendo seu próximo projeto, um filme de terror, ainda sem data estipulada para o início das filmagens.

Pablo Trapero

Nasceu na periferia de Ramos Mejia, cidade da região metropolitana de Buenos Aires, em 4 de outubro de 1971. Filho de um vendedor de carburadores, passou a infância num bairro pobre do município vizinho de San Justo. Formou-se em cinema pela Universidad de Buenos Aires. Dirigiu dois curtas-metragens, "Mocoso Malcriado" (1993) e "Negocios" (1995). Aos 25 anos, fundou, em sociedade com outros jovens cineastas, a produtora Cinematográfica Sargentina. Dentre outros projetos, Trapero co-produziu "Pizza, Birra, Faso" (1998), filme que obteve calorosa repercussão ao estrear no Festival de Mar del Plata.

Seu primeiro longa-metragem, "Mundo Grúa", finalizado em 1999, consumiu parcos US$ 40 mil e 14 meses de filmagem. Passou por Veneza e despertou impressões entusiasmadas de alguns críticos. Serge Toubiana, ex-diretor de redação da revista “Cahiers du Cinema”, escreveu que Trapero "reinventa uma forma de neo-realismo moderno". Depois de rodar em digital um curta-metragem experimental chamado "Naikor - La Estación de Servicio" (2001), o diretor finalizou seu segundo longa-metragem, "El Bonaerense", exibido aqui no Brasil como "Do Outro Lado da Lei".

O filme revela a esfera corrupta (desde assassinatos até cobrança de propinas) em que está mergulhada a polícia da província de Buenos Aires. O protagonista é Zapa, um jovem rapaz do interior que é contratado, por meio de um trambique armado por seu parente, para trabalhar como policial na capital. Assim, Zapa aos poucos passa a envolver-se em atividades fraudulentas. O grande mérito de Trapero é não criar nenhum tipo de juízo em relação aos personagens, daí a dificuldade do espectador em definir o caráter do protagonista, que ora aparece como ingênuo manipulado, ora como pilantra voluntário.

"Em ‘El Bonaerense’ o mundo é revelado antes de ser julgado, os fatos estão lá, Trapero apenas descortina um panorama sem julgar os acontecimentos. Existe uma grande sensibilidade do diretor em mostrar a complexidade de um sistema corrupto", escreveu Inacio Araújo, crítico da “Folha de S. Paulo”. O mais recente trabalho do diretor é "Família Rodante" (2004), uma espécie de “road movie”. Metida num trailer Viking 52 caindo aos pedaços, uma família inteira parte rumo a Misiones para o casamento de um parente. O filme foi rodado "em casa": a protagonista é a avó do diretor; a produtora executiva, Martina Gusman, é a mulher de Trapero; e seus pais viajaram juntos durante a filmagem.

Adrián Caetano

Nasceu em Montevideo, Uruguai, em dezembro de 1969. Ainda garoto mudou-se para a casa da avó em Córdoba, Argentina. Começou a trabalhar muito cedo. Aos 13 anos, já ajudava o pai em uma fábrica metalúrgica. Formou-se em cinema na cidade de Buenos Aires, mas atribui sua educação aos filmes que assistiu na infância. Graças à amizade com a dona de uma sala de cinema, Caetano pôde entrar sem pagar em persas sessões. Iniciou a carreira dirigindo curtas em VHS.

O primeiro projeto em película foi "Cuesta Abajo", quando Caetano tinha apenas 26 anos. Junto a outros filmes de diretores iniciantes, fez parte do ciclo “Histórias Breves”, premiado pelo Incaa. Em 1998, Caetano co-dirigiu "Pizza, Birra, Faso", um pisor de águas tratado por parte da crítica argentina como o ponto de partida para a renovação que se seguiu.

No calor da estréia, a revista argentina “El Amante” levantou a bandeira. "Uma geração aparece no cinema argentino com ‘Pizza, Birra, Faso’. Tanto uma geração de diretores quanto uma geração de personagens. O filme tem um ritmo fluido, com uma ascensão dramática surpreendente, que nunca busca o efeito, mas que se vai carregando de uma tensão dolorosa. A cidade mostrada é uma cidade suja, noturna, em que se alteram o cruel e a esperança, embora não haja lugar para a simples retórica. Mostra-se iluminada sem o brilho da publicidade".

Caetano passou um tempo trabalhando em projetos voltados para a TV. Dirigiu telefilmes e documentários para o programa infantil “Magazine For Fai”. Em 2001, rodou em condições precárias (poucas locações, em 16 mm, preto-e-branco) o filme "Bolivia", a história de um imigrante boliviano que chega a Buenos Aires e consegue emprego como cozinheiro em um bar. O filme foi exibido na Semana da Crítica no Festival de Cannes de 2001.

Com "Un Oso Rojo" (2002), seu terceiro longa-metragem, Caetano encerrou sua trilogia da tragédia. Dispôs de uma produção mais profissional e um reconhecido ator argentino como protagonista, Julio Chávez, para compor um "western urbano" sobre o reencontro de Rubén com sua ex-mulher e a filha depois de cumprir pena numa prisão. "O mundo de Adrián Caetano, ainda que apareça camuflado pela violência trágica, é um mundo de afetos", escreveu o crítico Pablo Scholz para o jornal argentino “Clarín”.

Martín Rejtman

Nascido na capital Buenos Aires, em 1961. Já aos 13 anos passou a freqüentar a Cinemateca. Com 20 anos, viajou aos EUA e participou de um curso intensivo de cinema na Universidade de Nova York. Mais tarde, mudou-se para a Itália e trabalhou como assistente de montagem nos estúdios Cinecittà. "Na época (1982), Fellini estava filmando ‘E La Nave Va’. Eu estava vivendo tudo isso. Atendia ao telefone e a chamada era para ele. Então, tinha que dizer ‘Signore Fellini...’, ia à cabine e avisava-o. Acompanhei o último dia de filmagem do filme. Foi lindo", contou Rejtman em entrevista à revista “El Amante”.

De volta a Buenos Aires, rodou seu primeiro projeto, "Doli Vuelve a Casa" (1986), um curta-metragem em preto-e-branco e 16 mm. Dois anos depois, deixou inacabado "Sistema Español", co-produção com os EUA que malogrou devido ao sumiço repentino e inesperado do produtor Otto Gortemberger. De seus próprios contos, Rejtman adaptou o primeiro longa-metragem, "Rapado" (1991), feito com um orçamento enxuto de US$ 15 mil.

O filme demorou cinco anos para conseguir uma estréia comercial. Recebido com relutância e desinteresse por boa parte da crítica argentina, hoje é visto como o preâmbulo anunciador do novo cinema do país. Em 1998, Rejtman filmou "Silvia Prieto", a história de uma jovem de 27 anos que em busca de emprego descobre outras pessoas cujo nome é idêntico ao dela. Dessa constatação desmembram-se vários episódios. O filme foi selecionado nos festivais de Sundance e Berlim.

O crítico Diego Trerotola apontou algumas características da obra coesa do diretor: "Rejtman trabalha com planos longos sem diálogos e sem movimentos, embora a duração do enquadramento não constitua tempo morto ou imprestável, trata-se do timing desconcertante e melancólico rejtmaniano. Isso possibilita uma certa liberdade de relação entre os personagens e o contexto". Seu mais recente filme, "Los Guantes Mágicos", abriu o Festival de Cinema Independente de Buenos Aires deste ano. É a história de um taxista que decide vender seu carro e investir a grana no negócio de luvas mágicas.

 

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